Santa Catarina de Sena aprendeu a escrever de forma milagrosa aos 30 anos de idade
26 de setembro de 2026
Santa Catarina de Sena, afresco do século XV na Igreja de São Pedro, Carpignano Sesia (Itália). Imagem em domínio público via Wikimedia Commons.
Durante a leitura do livro O Diálogo, de Santa Catarina de Sena (3ª ed., Paulus, 2022), deparei-me, no rodapé da página 11, com o seguinte trecho:
Caffarini, cujo nome próprio é frei Tomás Antônio de Sena, afirma em seu Libellus de Supplemento que Catarina aprendeu a ler milagrosamente, traçando de repente numa folha de papel as seguintes expressões: 'Ó Espírito Santo, vem ao meu coração! Pelo teu poder, arrasta-o para ti, ó Deus, e dá-me a caridade e o temor. Ó Cristo, protege-me de todo o mau pensamento, aquece-me e inflama-me com o teu doce amor, de modo que toda pena me pareça leve. Meu Pai Santo e meu doce Senhor, ajuda-me agora e em qualquer necessidade. Cristo amor, Cristo amor' (I, 1, 8).
Achei esse milagre interessante e fui imediatamente procurar o Libellus de Supplemento, para saber mais detalhes. Encontrei a edição crítica completa, em latim, disponível no repositório digital do Centro Internazionale di Studi Cateriniani. Aqui compartilho o que encontrei.
Quem foi Caffarini e o que é o Libellus
Frei Tomás Antônio de Sena (nome como aparece na edição da Paulus), conhecido na história como Tommaso di Antonio da Siena, ou simplesmente Tomás Caffarini, foi um frade dominicano que conheceu Catarina pessoalmente e dedicou boa parte da vida a divulgar sua santidade. O Libellus de Supplemento ("Livrinho do Suplemento") foi escrito, como o nome diz, para completar a Legenda Maior, a grande biografia da santa escrita por seu último confessor, o beato Raimundo de Cápua. Caffarini reuniu testemunhos, cartas e relatos de pessoas próximas a Catarina, e organizou tudo seguindo as partes e os capítulos da Legenda.
A referência que aparece no rodapé da Paulus, (I, 1, 8), corresponde exatamente a esta organização: Parte I, Tratado 1, Item 8 (Pars prima, Primus tractatus, Item octavo).
O milagre da leitura e da escrita
Primeiro, a leitura: o relato do beato Raimundo
O milagre da leitura é contado em detalhes pelo beato Raimundo de Cápua na Legenda Maior (Parte I, cap. 11, nº 28-29 na edição crítica de Nocentini; nº 113 na numeração tradicional). Ele o ouviu da boca da própria Catarina. Raimundo esclarece que ela não sabia latim, mas sabia ler as letras, e que não aprendeu com nenhum mestre humano:
[...] virgo hec sacra licteras quidem sciebat, sed eas homine viatore docente nequaquam didicerat [...]. Narrabat etenim michi de semetipsa quod, cum pro divinis laudibus horis canonicis depromendis decrevisset adiscere licteras, scripto sibi alphabeto per quandam suam sociam docebatur, sed cum per plures ebdomadas laborasset et nullatenus illud posset adiscere, cogitavit magistrum adire celestem.
Tradução: [...] esta santa virgem conhecia as letras, mas não as tinha aprendido com nenhum mestre desta terra [...]. Ela mesma me contava que, tendo decidido aprender as letras para rezar as horas canônicas em louvor a Deus, uma companheira escreveu-lhe o alfabeto e procurava ensiná-la; mas, depois de se esforçar por várias semanas sem conseguir aprender nada, pensou em recorrer ao Mestre celeste.
E então vem a oração de Catarina e a resposta de Deus:
Domine, si placitum est tibi quod sciam legere, ut psalmodiam et tuas laudes valeam decantare per horas canonicas, tu me docere digneris quod per me ipsam apprehendere nequeo, sin alias fiat voluntas tua, quia in simplicitate mea libenter permaneo [...]. Mira res et divine virtutis manifestum inditium! Antequam de oratione surgeret ita divinitus est edocta quod, postquam ab ipsa surrexit, omnem scivit licteram legere tam velociter et expedite sicut quicumque doctissimus.
Tradução: 'Senhor, se é do teu agrado que eu saiba ler, para poder cantar os salmos e os teus louvores nas horas canônicas, digna-te ensinar-me o que eu sozinha não consigo aprender; se não, faça-se a tua vontade, pois de bom grado permaneço na minha simplicidade [...]'. Coisa admirável e sinal manifesto do poder divino! Antes de se levantar da oração, foi de tal modo ensinada por Deus que, ao levantar-se, sabia ler qualquer letra com tanta rapidez e desenvoltura quanto o mais douto dos homens.
Raimundo acrescenta um detalhe curioso, que ele mesmo testemunhou: Catarina lia muito depressa, mas, se lhe pediam para soletrar, não conseguia e mal reconhecia as letras separadas. Para ele, esse era justamente o sinal de que se tratava de um milagre.
Um detalhe importante: ela aprendeu a ler em que língua? Raimundo esclarece: "não que soubesse falar latim, mas sabia ler as letras e pronunciá-las". O objetivo dela era rezar o Ofício Divino, e logo depois do milagre, diz Raimundo, ela passou a procurar os livros do Ofício e a ler neles os salmos e os hinos, que estavam em latim. Então Catarina lia textos em latim (sobretudo os da liturgia), mas não dominava o latim como língua. Tanto que o versículo "Deus in adiutorium meum intende" ("Ó Deus, vinde em meu auxílio"), que ela guardou até a morte, ela o repetia traduzido para o seu italiano. Já a escrita, como veremos, foi sempre na sua língua materna, o italiano falado em Sena.
Depois, a escrita: o relato de Caffarini
Ao ler o texto do Libellus, uma coisa me chamou a atenção: Caffarini fala dos dois dons, ler e escrever, e a oração do rodapé está ligada, na verdade, ao milagre da escrita. É o momento em que Catarina, sem nunca ter aprendido a escrever, pega a pena e escreve essas palavras de próprio punho.
O Item 8 começa assim: "Ex supradictis scripturis habui qualiter virgo, non solum miraculose didicit legere, sed adhuc scribere." — "Pelos escritos mencionados, soube como a virgem aprendeu milagrosamente não só a ler, mas também a escrever."
E Caffarini descreve a cena:
[...] cum quodam semel ad manus virginis huius sacre occurreret vasculum in quo erat cinabrum temperatum ad scribendum ac apices depingendum, per quendam scriptorem depositum et paratum, sumpto calamo et carta modica de papiro, cum ad scribendum minime didicisset, consedit et scribere cepit ac sequentia verba de competenti littera scripsit in suo vulgari sermone in cartula prelibata, que in latinum translata fuerunt.
Tradução: Certa vez, veio parar nas mãos desta santa virgem um pequeno vaso com cinábrio [tinta vermelha] preparado para escrever e desenhar as letras, deixado ali por um copista. Ela tomou a pena e um pedacinho de papel e, embora nunca tivesse aprendido a escrever, sentou-se, começou a escrever e, com letra adequada, escreveu no papel as seguintes palavras em sua língua vulgar [o italiano de Sena], que foram depois traduzidas para o latim.
Em seguida vem a oração, que Caffarini transmite em latim:
Spiritus sancte, veni in cor meum, per tuam potentiam illud trahas ad te Deum et michi concede caritatem cum timore. Custodi me, Christe, ab omni mala cogitatione. Me recalescas et me reflammes tuo dulcissimo amore, ita quod omnis pena michi levis videatur. Sancte mi Pater et mi dulcis dominator, or me iuvate in omni mea necessitate. Christus amor, Christus amor.
Tradução: Espírito Santo, vem ao meu coração; pelo teu poder, atrai-o a ti, ó Deus, e concede-me a caridade com o temor. Guarda-me, ó Cristo, de todo mau pensamento. Aquece-me e inflama-me de novo com o teu dulcíssimo amor, de modo que toda pena me pareça leve. Meu santo Pai e meu doce Senhor, ajudai-me agora em toda a minha necessidade. Cristo amor, Cristo amor.
Para Caffarini, a prova do milagre estava na própria folha, porque a letra era perfeita demais para quem nunca tinha estudado: "Como sinal mais evidente do milagre, a escrita era de tal qualidade e forma que ninguém conseguiria fazer algo parecido sem ter passado um bom tempo aprendendo a soletrar, a formar bem as letras e a escrever."
A folhinha que virou relíquia
Um detalhe bonito: aquele papel foi guardado como relíquia. Segundo Caffarini, ele foi dado a frei Jerônimo de Sena, agostiniano, que depois da morte de Catarina o presenteou em Veneza ao sacerdote Leonardo Pisani. Este, por sua vez, entregou-o ao próprio Caffarini, "como um presente especial" (pro munere speciali). Quando ele escreveu o Libellus, a folhinha estava guardada com outras relíquias da santa junto às irmãs da Ordem da Penitência de São Domingos, em Veneza.
"Esta é a primeira carta que escrevi"
No Item 9, Caffarini acrescenta outro testemunho, vindo de dom Estêvão Maconi, que foi um dos secretários de Catarina e depois se tornou monge cartuxo. Segundo ele, logo depois de aprender a escrever, Catarina levantou-se da oração com desejo de escrever e mandou-lhe uma cartinha que terminava assim: "Scias, fili mi karissime, quod hec est prima littera quam unquam ego scripserim." — "Saiba, meu filho caríssimo, que esta é a primeira carta que eu jamais escrevi."
Maconi contou ainda que, na presença dele, Catarina escreveu muitas vezes de próprio punho, inclusive algumas páginas do livro que compôs em sua língua vulgar. Caffarini não diz o nome do livro, mas Catarina compôs um único livro, o Diálogo (o restante de sua obra são cartas e orações), e as editoras do Libellus identificam o "livro da virgem" citado por Caffarini com o Diálogo: "[...] multotiens postmodum propria manu virgo scripsit et inter alia aliquas cartas de libro quem ipsa in suo vulgari composuit." — "[...] muitas vezes depois a virgem escreveu de próprio punho, entre outras coisas algumas folhas do livro que ela compôs em sua língua vulgar."
Caffarini lembra também as cartas que Catarina escreveu de próprio punho ao beato Raimundo, contando como o Senhor havia formado nela, de modo maravilhoso, a capacidade de escrever: "[...] aptitudinem scribendi mirabili modo Dominus in mente sua formaverat ex providentia speciali." — "[...] o Senhor, por uma providência especial, formara de modo maravilhoso em sua mente a aptidão para escrever."
Nas palavras da própria Catarina: a carta da Rocca d'Orcia
O mais bonito é que temos o testemunho da própria santa. No outono de 1377, hospedada no castelo da Rocca d'Orcia, perto de Sena, Catarina escreveu uma longa carta ao beato Raimundo (Lettera T. 272). No fim, ela conta:
Questa lettera, e un'altra che io ve ne mandai, ò scritte di mia mano in su l'Isola della Rocca, con molti sospiri e abondanzia di lagrime, in tanto che l'occhio, vedendo, non vedeva [...].
Tradução: Esta carta, e uma outra que vos mandei, escrevi-as de minha própria mão na Ilha da Rocca, com muitos suspiros e abundância de lágrimas, de tal modo que os olhos, vendo, não viam [...].
E explica que a capacidade de escrever foi um presente de Deus para consolá-la:
m'aveva dato e proveduto col darmi l'attitudine dello scrivere, a ciò che, discendendo da l'altezza, avessi un poco con che sfogare el cuore perché non scoppiasse. [...] per amirabile modo me la formò nella mente mia, sì come fa el maestro al fanciullo, che gli dà l'essemplo. Unde, subbito che fuste partito da me, col glorioso evangelista e Tomaso d'Aquino così dormendo cominciai a imparare.
Tradução: [...] Ele me deu e providenciou a aptidão para escrever, para que, ao descer das alturas [da contemplação], eu tivesse um pouco com que desafogar o coração, para que não explodisse. [...] De modo admirável, Ele a formou em minha mente, como faz o mestre com o menino, dando-lhe o modelo. Assim, logo que partistes de junto de mim, com o glorioso Evangelista [São João] e Tomás de Aquino, assim dormindo, comecei a aprender.
O que Catarina quer dizer? Vamos por partes.
"Como faz o mestre com o menino, dando-lhe o modelo": na Idade Média, quem aprendia a escrever copiava um modelo (essemplo), uma folha com as letras bem traçadas pelo professor. Catarina diz que Deus fez isso dentro da mente dela: imprimiu nela o modelo das letras, sem folha e sem professor humano.
"Logo que partistes de junto de mim": ela fala com Raimundo. O aprendizado aconteceu logo depois que ele se despediu dela e partiu, pouco antes desta carta.
"Com o glorioso Evangelista e Tomás de Aquino, assim dormindo, comecei a aprender": quem dá o dom é Deus, mas Catarina conta que, durante o sono (provavelmente num sonho ou visão), estavam com ela São João Evangelista e São Tomás de Aquino, como mestres ou companheiros desse aprendizado. A escolha não é por acaso: São João é o evangelista do Verbo, a Palavra de Deus, e São Tomás é o grande doutor da Ordem Dominicana, à qual Catarina estava ligada. A carta não explica o que exatamente cada um fez; diz apenas que foi "com eles" que ela começou a aprender.
Repare também como Caffarini, anos depois, praticamente traduziu essa carta para o latim. No Libellus ele escreve "aptitudinem scribendi mirabili modo Dominus in mente sua formaverat" ("o Senhor formara de modo maravilhoso em sua mente a aptidão para escrever"), que é o eco direto das palavras de Catarina: "l'attitudine dello scrivere [...] per amirabile modo me la formò nella mente mia" ("a aptidão para escrever [...] de modo admirável Ele a formou em minha mente").
E há mais uma surpresa nessa carta. Nela Catarina narra uma experiência de oração em que uma "serva de Deus" (ela mesma, falando de si na terceira pessoa) fazia quatro pedidos a Deus, e Deus lhe respondia. É exatamente assim que começa o Diálogo: uma alma que faz quatro pedidos ao Pai e recebe a sua resposta. Por isso esta carta costuma ser vista como uma semente do Diálogo. O dom da escrita e o livro nasceram praticamente juntos.
O Diálogo: um livro ditado em êxtase
Logo na abertura da Parte I do Libellus de Supplemento, ao listar as fontes que usou para escrever o seu próprio livro, Caffarini menciona o livro de Catarina (que hoje chamamos de O Diálogo ou Livro da Divina Doutrina) e explica como ele foi composto: "[...] quam etiam dicte virginis liber quem scribentibus pluribus ipsa in suo vulgari, et in quadam abstractione constituta, dictavit [...]" — "[...] como também o livro da dita virgem, que ela, estando numa espécie de abstração [isto é, arrebatada em êxtase], ditou em sua língua vulgar enquanto várias pessoas escreviam [...]"
O beato Raimundo confirma isso com ainda mais detalhes. No prólogo da Legenda Maior, ele diz o que ouviu dos próprios secretários:
Porro contenta in eo, ut relatum est michi per eius scriptores, ipsa numquam dictavit dum utebatur corporeis sensibus, sed semper dum actualiter in extasi posita loquebatur cum sponso suo, propter quod et liber ille ordinatus est per modum dialogi inter Creatorem et ab ipso creatam animam rationalem et viatricem.
Tradução: Quanto ao conteúdo do livro, conforme me contaram os seus secretários, ela nunca o ditou enquanto usava os sentidos do corpo, mas sempre enquanto, posta em êxtase, falava com o seu Esposo; por isso o livro está organizado em forma de diálogo entre o Criador e a alma racional, peregrina, por Ele criada.
E na Parte III ele conta como isso acontecia: Catarina pediu aos secretários que ficassem atentos e, quando ela fosse arrebatada, escrevessem tudo o que ela ditasse:
Rogaverat siquidem scriptores suos [...] quod starent attenti et observarent quando [...] iuxta consuetudinem suam rapiebatur a corporeis sensibus et tunc quod dictabat scriberent diligenter.
Tradução: Ela pedira aos seus secretários [...] que ficassem atentos e observassem quando, segundo o seu costume, era arrebatada dos sentidos corporais, e que então escrevessem com cuidado o que ela ditava.
[...] quia nec oculi videre, nec aures audire, nec nares sentire odorem, nec gustus saporem, nec etiam tactus ad obiectum suum moveri poterat [...] et tamen, Domino sic operante, virgo sacra in illa extasi posita totum illum librum dictavit.
Tradução: [...] pois nem os olhos viam, nem os ouvidos ouviam, nem o olfato sentia os cheiros, nem o paladar os sabores, nem o tato reagia [...]; e, no entanto, por obra do Senhor, a santa virgem, posta naquele êxtase, ditou o livro inteiro.
Juntando os dois testemunhos: mesmo sabendo escrever (e, segundo Maconi, tendo escrito de próprio punho algumas folhas do livro), Catarina não compôs o Diálogo como um autor comum, sentado à mesa. Segundo Raimundo, o livro foi ditado enquanto ela estava em oração, fora de si, em êxtase, falando com Deus (com "o seu Esposo", nas palavras de Raimundo), e seus secretários (scribentibus pluribus, "escrevendo vários", nas palavras de Caffarini) anotavam as palavras. E o próprio Raimundo tira a conclusão: é por isso que o livro tem a forma de diálogo entre o Criador e a alma (propter quod et liber ille ordinatus est per modum dialogi).
Linha do tempo aproximada
As fontes medievais quase nunca dão datas exatas, e os estudiosos discutem algumas delas. Mesmo assim, é possível traçar uma cronologia aproximada:
25 de março de 1347 — Nascimento de Catarina em Sena.
c. 1363-1367 (por volta dos 16 aos 20 anos) — Anos de recolhimento em casa. Nesse período, segundo o beato Raimundo (Legenda Maior I, 11), ela tenta aprender o alfabeto com uma companheira, sem sucesso, pede a Deus a graça e passa a ler com facilidade.
Outono de 1377, na Rocca d'Orcia (Val d'Orcia, perto de Sena) — Recebe o dom de escrever. Em uma carta ao beato Raimundo (Lettera T. 272, de outubro de 1377), ela conta que aquela carta e uma anterior foram escritas "di mia mano", de próprio punho, e que o dom veio de Deus: ela começou a aprender "dormindo", tendo com ela São João Evangelista e São Tomás de Aquino. Nessa mesma carta aparecem as "quatro petições" que abrem o Diálogo.
Fim de 1377 a outubro de 1378 — Catarina dita o Diálogo em êxtase aos seus secretários. Raimundo situa o trabalho em Sena, depois que ela voltou de Florença com a paz entre a cidade e o papa (julho de 1378), "cerca de dois anos antes de sua morte". Parte dos estudiosos acha que ela já havia começado na Rocca d'Orcia, no fim de 1377. A conclusão costuma ser datada de outubro de 1378.
29 de abril de 1380 — Morte de Catarina em Roma, aos 33 anos.
Resumindo: primeiro veio a leitura (anos 1360), depois a escrita (1377) e, praticamente ao mesmo tempo, o ditado do Diálogo (1377-1378).
Uma nota de honestidade histórica
Na edição crítica do Libellus, as editoras observam que só Caffarini narra o episódio da folhinha escrita com cinábrio (tanto aqui como em seu depoimento no chamado Processo Castellano, o processo de Veneza sobre a santidade de Catarina), e que o historiador Robert Fawtier chegou a contestar duramente a autenticidade desse episódio.
Seja como for, o essencial permanece: uma jovem sem estudos, filha de um tintureiro de Sena, tornou-se uma das maiores escritoras da língua italiana e Doutora da Igreja. E, segundo Caffarini, uma das primeiras coisas que ela escreveu foi uma oração pedindo ao Espírito Santo que viesse ao seu coração. Talvez não haja resumo melhor de toda a sua obra: "Cristo amor, Cristo amor."
Fontes
Thomas Antonii de Senis "Caffarini", Libellus de Supplemento. Legende prolixe virginis beate Catherine de Senis, ed. I. Cavallini e I. Foralosso, Roma, Edizioni Cateriniane, 1974. Pars I, Prologus (p. 11); Tractatus I, Items 8-9 (pp. 16-18). Disponível no Repositório Digital do Centro Internazionale di Studi Cateriniani.
Santa Catarina de Sena, O Diálogo #publi, 3ª ed., São Paulo, Paulus, 2022, p. 11, nota de rodapé.
Raimondo da Capua, Legenda maior sive Legenda admirabilis virginis Catherine de Senis, ed. crítica de S. Nocentini, Firenze, SISMEL - Edizioni del Galluzzo, 2013. Prólogo, nº 23 (p. 121); Parte I, cap. 11, nº 28-30 (pp. 196-197; nº 113 na numeração tradicional); Parte III, cap. 1, nº 6-7 (p. 362); Parte III, cap. 3, nº 2 (p. 375).
Caterina da Siena, Lettere, a cura di Antonio Volpato, in: Santa Caterina da Siena, Opera Omnia. Testi e Concordanze, Provincia Romana dei Frati Predicatori, Pistoia, Centro Riviste, 2002. Lettera 272 (numeração de Tommaseo), a frei Raimundo de Cápua, Rocca d'Orcia, outubro de 1377, pp. 368-374 (trecho sobre a escrita nas pp. 373-374), conforme o PDF disponível no site do Centro Studi Cateriniani.